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À medida que meu pé doía, durante o parikrama (perambulação) ao rodar pela cidade de Vrindavan, perfiz descalço parte da caminhada. O pavimento estava intoleravelmente quente, mas a terra das bordas da estrada eram macias, refrescantes e maternas, mesmo quando o caminho encontrava-se com um fluxo ocasional de água e se transformava em lama clarificada. Eu não esperava regozijar-me tanto com minhas solas nuas meditando em um tenro apoio. E ao invés de cançasso, senti-me incrivelmente à vontade com meu corpo. A maioria das pessoas ao meu redor andavam do mesmo jeito. Só que eu era o único a carregar sapatos de couro em minhas mãos.
Durante a peregrinação, nós retiramos nossos sapatos constantemente (quantas vezes por dia?) - antes de se curvar na frente de uma velha e sagrada árvore, cercada por fios e dúzias de sininhos suspensos, ou antes de entrar em qualquer lugar, por exemplo, o museu Sri Krishna em Kurukshetra, a casa de Shivanananda em Rishikesh, em uma sala de aula ou variadas livrarias em Varanasi e, é lógico, em inumeráveis salões de meditação, cavernas sagradas e templos... Absolutamente qualquer lugar. Um jovem indiano perguntou-me numa dessas: "Você fica mesmo de sapato quando vai à igreja na França?"rdquo;
A identidade da Índia depende enormemente deste sentimento acerca dos pés: assim diria após minha primeira jornada ao país. Nem tanto pela jornada ter sido rotulada como "peregrinação", uma palavra que geralmente envoca a idéia de caminhada a pé para um local sagrado (fizemo-la na maior parte de ônibus!).
Embora eu não tenha testemunhado as grandes multidões indianas se aglomerando e se apressando daqui para ali, com ou sem um báculo nas mãos, a caminho de sucessivos pujas, khumba melas, bhaisakis e outros encontros religiosos pelo país, é óbvio para mim que a civilização indiana é mais baseada em respeitar os pé humanos - e pés descalços - do que qualquer nação ocidental(izada) que eu conheço.
Estar descalço é um sinal. No Ashram Sri Aurobindo em Delhi construído pela Mãe, você não se aproxima do santuário memorial de Sri Aurobindo calçando sapatos. Se quiser se comunicar com o grandioso Invisível, até mesmo sandálhas serão uma falha. Elas o isolariam, eu acho, do espírito da Mãe Terra. E a Terra é a energia cósmica, carregando você por suas vibrações além do lado prático da vida, além do imediato visível, além do véu de maya. Pés descalços o mantém forte em suas pernas, estabelecendo sua conexão, inconscientemente, entre a terra e o céu. A água dos rios desce do paraíso e corre pelo chão ou mergulha bem fundo na terra. Nossas várias sessões de lavar os pés no rio Ganges, ou em alguns auspiciosos prayags (confluência de rios) ou em lagoas, tudo isso significava, eu diria, um contato especialmente purificado com nosso planeta Terra, cujo dos mesmos componentes somos feitos, como dizem agora os astrofísicos.
Você se lembra das pegadas de mármore dos santos, ou mesmo de deuses, como a de Shiva, que descobrimos no altar de alguns lugares santos, e as quais pessoas tocavam-nas respeitosamente com seus dedos antes de acaricia-las com suas testas? Um destes testemunhos estava no pátio daquele templo em Rishikesh, onde um grande santo - cujo nome, por sinal, esqueci agora - abandonou seu corpo. Mas suas pegadas permanecem ali para testificar que ele alguma vez habitou e partiu deste mundo. Por que suas pegadas e não seu coração num santuário, ou seu crânio, ou qualquer outra relíquia menor, mesmo um dente, conforme a devoção supersticiosa e materialista ocidental poderia ter possuído? Notamos que, na Índia, tocar os pés de alguém ainda é um sinal de reverência. Você não os beija, você só se inclina e toca-os. Há algo mais móvel em nosso corpo que não os pés? O que as pessoas ritualisticamente adoram nos templos é apenas um traço, a imagem de uma impressão, algo imaterial, apenas um símbolo de nossa energia divina movedora. Li certa vez que a menor das castas na Índia, os shudras, nasceram dos pés de Brahma. Uma mensagem de esperança, quiçá…
E eu me lembro do hábito das pessoas da Índia de comerem com os dedos. E meu mestre de yoga, sorrindo a nós ocidentais, os quais seus dedos sem contato direto com a comida perderam uma sensibilidade essencial. Então haveria alguma energia essencial no alimento? Claro! Nenhum estômago faminto precisa de uma demonstração disso.
Então, a primeira lição da Índia para mim foi a recaptura de algo da energia telúrica enquanto me tornava ciente que nós, às vezes, usamos meios desnecessários entre a terra e nosso corpo. Energia divina? Energia cósmica. Palavras não fazem diferença para mim.
E agora, uma pergunta polêmica.
Como uma civilização tão lindamente moral, religiosamente estruturada como a Índia contiua a manter tanta injustiça social, tanta pobreza insuportável, tanta indignidade humana tal qual se pode presenciar por todo país pelas estradas, nas vilas, subúrbios e grandes centros? Pessoas sem-teto, mendigos velhos e jovens, pedintes famintos, sem um lar para viver e crianças abandonadas que carregam bebês em seus braços em tamanha quantidade alastrrada e endêmica? Não há algum questionamento horripilante nisso?
Vamos ser claros: não sou um ocidental tão ingênuo assim. Morei vários anos (e viajei) em vários países da América do Sul e África do Norte onde a miséria física também pode ser encontrada em diversas esquinas das ruas. Todavia, nunca e em lugar algum vivenciei tamanha evidência silenciosa de que tais coisas deveriam pertencer a uma sociedade normal, de que não há nada fundamentalmente errado em viver pacificamente próximo a multidões de desterrados abaixo das condições humanas…
Sei que este sentimento é parcialmente injusto, pois que o governo da Índia peleja, apesar de lentamente, contra estes preconceitos historicamente enraizados; e eu sei que a maioria dos países ocidentais "democráticos" também mostram uma chocante falta de solidariedade social. Mas meu sentimento primário de desconforto sobre a peregrinação na Índia permanece o seguinte: nós viajamos por demais confortáveis e fomos maravilhosamente recebidos em todo lugar por monges e, também, por pessoas religiosas e comuns, enquanto um placar imenso de seres humanos miseráveis morriam nas periferias sob indiferença e rejeição. Nossa caminhada em Vrindavan trouxe-me essa impressão. Um mero sentimento emocional, você dirá. Ok! Isto é um tipo de emoção, afinal, não quero exagerar, mesmo que seja pelos meios da yoga. Pois tais emoções levam a profundos pensamentos. Para a realização, por exemplo, é impossível viver quieto em países onde alguns desfrutam do status de seres humanos e outros são confrontados num status com a qualificação de subhumanos.
E para a realização, por exemplo, ações como as conduzidas pela Missão Hariharananda para as crianças (descobri este fato muito concretamente) em Champawat, Haridwar e Uttarkashi (e os vários centros da Arca do Amor na América do Sul), são a mais efetiva forma de ajudar os abandonados, especialmente na Índia, de acordo com a luta ética que a Índia empenha contra a rejeição social. Oferecer conforto material e espiritual juntos para os órfãos, para os sem teto e garotas pobres é de fato grandioso: toma conta da natureza completa dos seres humanos, daqueles que mais precisam dela. Fotos enviadas pelo Swamiji a meses atrás tentaram me convencer da verdade disso, mas eu tive que participar desta peregrinação que abre os olhos para ter um real entendimento de como, e quanto, a pobreza e a indiferença devem ser combatidas aqui. Estou feliz por ter visto crianças brincando, trabalhando, cantando e dançando.
Chegando ao ponto, percebo que meu questionamento encontra uma resposta. Fraceses, dizem, distinguem-se por sua paixão pela igualdade. Então, ser humildemente grato (ambos meus pés e espírito!) pela jornada frutífera através de suas realidades mais desiguais.
Quem sabe uma peregrinação à América do Sul devesse ser considerada um dia? Mesmo que os santos daquele hemisfério não sejam exatamente do tipo dos quais respeitamos na Índia. Mas este é um capítulo de uma história a qual nenhum Ganesha escreveu ainda…
Gilles
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