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Do blog de Miguel Angel Cardenas M., Nov. 26, 2008 Link:
http://blogs.elcomercio.com.pe/unicorniosydragones/2008/11/el-monje-del-kriyayoga. html#more

Meu último aniversário havia sido o pior de minha vida, nunca sofri tanto como naquele dia, lancetado e lacerado por um apego sentimental. Embora agora o veja como uma benção oculta, porque fez com que eu desejasse para este último 11 de outubro atrair algo significantemente diferente, e assim foi. Uns dias antes – pelo oceano de azahar da vida – me interei que havia chego ao Peru

Yogi Sarveshwarananda Giri, o reconhecido monge francês narrador de contos e cantor, e que daria a iniciação em Kriya Yoga

no sábado do meu santo. Decidi presentear-me com essa experiência para diluir a dor nigérrima do ano passado. Porque a coincidência era para matar a norte: justamente estava lendo o livro “Autobiografia de um Iogue”, de Paramahansa Yogananda, um dos maiores clássicos da literatura espiritual e que recomendo com amor cúmplice.

Aí pode-se ler sobre o inveterado Kriya Yoga primeiramente sob o ponto de vista físico: “tratase de um método fisiológico por meio do qual o sangue humano é descarbonizado e sobrecarregado com oxigênio. Os átomos de oxigênio ‘extra’, são transmutados em ‘vidétrons’, rejuvenescendo o cérebro e os centros espinhais.Impedindo o acúmulo de sangue venoso, o iogue é capaz de interromper a deterioração dos tecidos, permitindo, com maior progresso, transmutar as células em energia”.. Então, logo se adentra através de seus capítulos a um universo único e ancestral na Índia e América, onde se fundem a mitologia e a ciência sem fronteiras. em níveis de incalculável exceção.

 

Por esta razão, foi uma injeção de (c)alma a chegada deste Swami (monge renunciante) que compõe e interpreta canções sagradas como um Bob Dylan sacerdotal, que conta contos e histórias de humor espiritual para iluminar anjos e crocodilos juntos e que, através de uma organização chamada
Arca do Amor
, oferece refúgio a crianças de rua, viúvas e idosos pobres na América Latina e nos Himalayas. Sarveshwarananda em sânscrito significa: “a alegria divina em tudo”. Ele foi o primeiro mongeprofessor ocidental de
kriya yoga de uma linhagem que encabeça o lendário Babaji, e que continua com
Lahiri Mahashaya, o pai do kriya yoga moderno, Swami Shriyyukteshwar, o grande
Paramahansa Yogananda (quem iniciou Gandhi ao kriya) até o último mestre iluminado: Paramahansa Hariharananda, que realizou o nirvikalpa samadhi através deste yoga – que
requer uma iniciação de fogo especial e um compromisso secreto para conservar sua pureza.

 

O nirvikalpa samadhi é um estado de realização divina na qual o coração, os pulmões e o pulso são detidos – entretanto, não causam a morte – para que o iogue torne-se uno com o Infinito divino. Segundo Hariharananda, um ciclo somente de exercícios, respiração e meditação do Kriya Yoga – onde se experimentam a luz, a vibração e o som de Deus – equivale a um ano de evolução espiritual e purificação do karma. Uma das falácias da “nova era” é difundir que um “eu” ilusório possa conseguir a iluminação sozinho, por si mesmo. Nos maiores ensinamentos orientais se incide primeiro a necessidade de um guru, um mestre completo com a experiência da realização, com

conhecimento interior e transcendência de dimensões nas quais nos podemos perder. Depois de experimentar – com grande senso crítico – a iniciação no meu aniversário, tirei férias e segui Swamiji (o sufixo ‘ji’ implica respeito) a um retiro de uma semana na Ilha do Sol, na parte boliviana do Lago Titicaca (onde também conhecemos e compartilhamos os rituais com um yatiri aymara chamado Faustino Ticona).

 

Neste blog exploramos os mitos e as mais antigas, sábias e misteriosas tradições espirituais: cada uma com sua própria unicidade. Uma vez um grande mestre me disse que o templo da iluminação é único; mas pode-se chegar a ele pelo norte, sul, leste e oeste de acordo com o mais belo de seu karma. Que o que possamos compartilhar aqui sirva como um mapa de conexões misteriosas para pesquisadores sinceros. Quando jovem, pode-se ser como um animal cósmico que explora muitos caminhos que lhe dêem uma

compreensão do todo, e de nada além da ilusão e das dualidades. Logo, pouco a pouco, virá a fase definitiva onde este explorador de instintos mágicos fica com o definitivo caminho – coração com o qual se fundirá na fonte...

 

Entrevistei o Swamiji em La Paz e na paz. Infelizmente, meu gravador falhou nas partes onde falávamos dos conceitos sobre Deus – o Kriya Yoga faz analogias entre o hinduísmo e o cristianismo, especialmente entre a Bíblia e o Bhagavad Gita, Cristo e Krishna. Porém, mais que os próprios ensinamentos (que requererão outro ‘post’) estão aqui as confissões pessoais descarnadas de um monge que hoje transpira amor e ação desinteressada em cada sopropressentimento- hábito, más que antes havia sido um roqueiro anarquista, publicitário de sucesso em Londres, cujo ego máximo era ser ateu; e no entanto, como todos, não era feliz. Com Swamiji aprendi por fim que não existe ‘pecado original’ e sim ‘inocência original’. Ainda que soe difícil de entender às mentes condicionadas por dogmas: podemos ser Deus buscando por Deus.

 

É uma constante nos caminhos espirituais: a conversão, o caminho de Damasco de São Paulo. Em você ocorreu um ‘plot point’ dramático: era anarquista e estava na Meca do dinheiro de da fama.

Sempre é a mesma história universal: a pessoa chega através do sofrimento. Uma experiência de dor, de miséria, de ver somente portas fechadas em todos os lugares. E estamos tão frustrados que neste momento estamos prontos para mudar. Então Deus manda um mensageiro, uma idéia, uma oportunidade. Como disse Baba Hariharananda, sempre que encontrarmos a oportunidade devemos abraçá-la, porque talvez ela nunca mais se repita.

Seu sofrimento era sentimental, profissional…?
De tudo, era uma crise existencial. Estive tão confuso que uma amiga até me convidou para uma conferência para escutar algo sobre vidas passadas; eu não tinha nenhum interesse nestas coisas. Ela era médium e queria fazer uma leitura de mim, mas eu lhe dizia que não. Tinha 29 anos, a idade crítica, o retorno de Saturno, é uma época em que se não se está esta bem ancorado em seu caminho espiritual há um grande choque que lhe dará novas oportunidades. Mais ela me disse uma frase que me impressionou: “Vejo um menino em um sótão muito escuro e sujo, tentando limpar a janela para ver algo”. Esta frase me lança em uma busca, porque depois fiz um curso de leitura espiritual psíquica, que foram meus dedinhos no mar.

 

Mas antes disto: você era um publicitário muito bem sucedido em uma grande firma européia, dentro do sistema.

É que me deparei com choques, mudanças, dor, estar tão infeliz com a minha profissão. E sim, fui um publicitário bem sucedido em Londres, com muito dinheiro e tudo. Mas um dia, enquanto me barbeava frente ao espelho, antes de ir ao escritório, pude gritar ao reflexo: “Eu te odeio, não posso te suportar! O que você está fazendo, mentindo e tratando de convencer as pessoas que estão infelizes e incompletas a comprar estes produtos? Não podia continuar com essas mentiras. Então graças a Deus e ao meu subconsciente fui despedido uns dias depois. Ainda que tenham voltado a me contratar com free lance me pagando o triplo, aceitei somente para poupar um pouco de dinheiro para ir aos Estados Unidos. Minha esposa era norte-americana e me pareceu bom ir até a Califórnia para começar uma vida nova. Então trabalhei mais cinco semanas na empresa e economizei o suficiente para viver em São Francisco por seis meses.

O que houve com o psiquismo?
Nesta época buscava outras formar de lidar com a minha mente, minhas emoções, e encontrei a leitura psíquica, que esteve bem interessante por um tempinho, mas me parecia tão infantil e limitada. Estive em uma escola muito famosa na Califórnia, onde ensinavam a utilizar símbolos e a impressionar aos clientes com suas habilidades que não são nada além de puro marketing e manipulação. Por exemplo, nas leituras psíquicas sempre utilizávamos frases tão vagas que se aplicam a todas as pessoas. “Posso ver que há um animal em sua vida”. E respondiam: “Sim, meu cachorrinho quando tinha 5 anos, como você sabe?”

Todos têm um animal em nossas vidas…

 

Há uma constante aí, Swamiji: a da manipulação da publicidade para a manipulação dos psíquicos...

Sim, não pude suportar este tipo de vida novamente e saí do instituto... Comecei a estudar medicina chinesa porque tive um grande acidente em Londres e a medicina alopática não pôde me ajudar. Um amigo acupunturista me havia curado de meus problemas físicos. E as minhas feridas emocionais e psicológicas automaticamente começaram a sarar, fiquei tão impressionado! Umas pequenas agulhinhas nas costas: e tudo estava mudando nos meus joelhos, nos meus medos e insegurança. Mandei a minha esposa lá e ela também foi curada em poucas sessões. Então nós dois começamos a estudar, mas nos divorciamos no primeiro ano.

 

A medicina chinesa foi conectando-o de algum modo a Deus ou aconteceu de uma maneira laica?
Era o ponto de vista da energia, falávamos do chi, da circulação nos meridianos. Eu pude entender isso, porque era muito científico e verificável. Nesta época encontrei um livro por suposta casualidade: “Autobiografia de um Iogue” de Paramahamsa Yogananda. O li em um fim de semana e fiquei muito impressionado, porque pela primeira vez em minha vida li um livro onde a espiritualidade, ou Deus, ou a alma, ou os fenômenos sutis estão explicados de maneira tão racional, que pude aceitar esse tipo de análise. Uns dias depois li um cartaz que dizia que os discípulos do grande mestre realizado Paramahamsa Hariharananda (conhecido como Baba: “grande pai”) estavam na cidade de São Francisco para dar uma iniciação em Kriya Yoga, e a sincronicidade foi tão incrível que fui imediatamente e recebi a iniciação, mas sem acreditar em nada. Quando o monge falou de Deus, tapei meus ouvidos. Porém pratiquei e em alguns meses senti tanta transformação, tanta energia, uma presença interna tão forte e tão incontestável que, sim, aceitei que Deus existe. Não na visão católica do sétimo céu...


Nesta visão Deus sempre nos julga…

Sim, e sempre está pronto para castigar-nos! Porém eu o senti como uma inteligência que está comandando todos nossos processos biológicos, sutis, emocionais, mentais, psicológicos... Não somente dentro de o meu próprio ser, mas também nas flores, na natureza, em meus pacientes, a través das minhas agulhas… Porque sinto esta percepção interior com a arte da acupuntura, que é a de direcionar o prana ou o chi. E este chi é inteligente, sabe exatamente o que deve fazer. O acupunturista é um facilitador, não um doutor, sabe abrir portas e fechá-las. Estive tão apaixonado por esta descoberta que saí das minhas depressões. Encontrei o Baba depois na Califórnia.


Como foi este encontro com o último mestre iluminado da linhagem?
Não foi muito bem, nessa época eu estava muito cético. Era arrogante, um livre pensador que não podia aceitar um guru ou um mestre.


Você vem do espírito cartesiano francês, que gera sempre um incêndio em resposta a qualquer coisa que se pareça ao que se conhece como culto ao líder ou à personalidade. Inclusive pode-se ver como manipulação e influência o que o Oriente enfatiza: a devoção ao guru.
Sim, durante os primeiros anos não aceitei nenhum guru. Praticava Kriya Yoga como uma técnica para melhorar meus processos mentais, sair da minha depressão, aprender a concentrar a mente, evitar comportamentos negativos. Era um exercício com fins egoístas, mas com pesquisas científicas. Porque se faço esta postura realmente há uma mudança neurológica correspondente e eu a verificava. Estava tão interessado na parte científica, mas na parte devocional da entrega à Deus e ao guru, muito pouco. Mais me interessava em ver o Baba porque era o cabeça da linhagem. Quando soube que estava em Santa Bárbara fui, e me sentei no fundo da sala. Era dezembro e depois de alguns minutos ele entrou com sua maravilhosa barba branca e um gorrinho vermelho. A imagem em minha mente era a do Papai Noel! Ele guiou a meditação e imediatamente me chamou a atenção, porque nesta época eu tinha o hábito de balançar com a vibração interna, e Baba no meio gritou: “Para!”. E logo com uma voz mais doce me disse que se eu não parasse agora não ia fazê-lo no futuro. Esta presença do guru, tão forte e tão amorosa ao mesmo tempo, me impactou.

Uns dias depois soube que era possível ter uma entrevista privada com o Baba. Mas na noite anterior estive em um quarto com outro kriyavan e, ele havia ido ver-lo um dia antes para outra entrevista. Perguntei-lhe como foi, e ele disse: “Nada, só fala coisas vagas e gerais, não me disse nada”. E nesta época eu estava tão frágil espiritualmente que me desanimei e cancelei com uma desculpa a minha entrevista. Escapei como um covarde, só por causa desta frase. Portanto cuidado com a companhia, dizemos no Kriya Yoga, selecione-a bem... Logo, depois de uns anos, de repente Baba entra em meu cérebro em uma noite. E comecei a pensar nele e a sonhar com ele, sem nenhum motivo. Tirei de meus livros uma foto sua e a pus em minha frente, “O que você quer, por que está no meu cérebro? Me deixa.”, lhe dizia. Mas não houve resposta. E o Baba continuou como uma obsessão, até que tomei a decisão de ir à Índia por seis meses. Era para tentar entender o que é a Índia... Então fiquei seis meses viajando pelo norte, sul, leste, oeste, Nepal, Tailândia.

 

Buscando Mestres, templos, peregrinações…?
Sim, buscando várias experiências espirituais em um ashram, um bosque, uma caverna, um lago sagrado. E buscando me submergir em uma corrente espiritual: budista, taoista, hindu, um pouco de tudo.

 

É uma etapa do buscador explorar em tudo e muito…
Sim, até que por fim encontrei o Baba de novo e ele me disse: “Ah, este rosto é muito familiar”. Ele foi tão amoroso. A razão pela qual fui à Índia foi para tentar entender qual é o meu caminho. E minha pergunta para o Baba foi: “Qual é a minha missão, meu destino, Baba, devo me casar, ser um bom médico, criar crianças?”.

médico, criar crianças?”. Estava envolvido em uma fundação (“The Immune Power Foundation”) que procura ajudar pacientes com AIDS. Mas tinha dúvidas se essa era a minha missão ou era a de renunciar ao mundo e entrar para a vida monástica. Porque passei cinco meses em diferentes ashrams e gostei deste tipo de vida. Baba me deu uma resposta típica dele: “Você é Deus, então sabe tudo, vá embora”. E foi o fim da minha entrevista, em três minutos. Voltei ao meu hotel, perto do ashram, e me pus a contemplar o que significava isso. Porque eu tinha fé de que se o mestre o dizia, a solução estava em suas palavras. Mas não pude ver nada. Uns dias depois pedi outra entrevista. Minha idéia foi dizer que eu possivelmente era Deus, mas muito amnésico. Entretanto, ele não me concedeu outra entrevista, estava muito doente nessa época, sempre na cama. Porém duas vezes ao dia deixava que seus discípulos se sentassem em seu quarto. Eu fui todos os dias em frente à sua porta e o Baba nunca olhava na minha direção, e eu a cada dia escutava e anotava. Até que ele falou com outra estrangeira em inglês. Na conversa mencionou que a vida monástica é maravilhosa; imediatamente tomei esta frase como meu visto espiritual. Decidi: é o meu caminho.

 

Uma frase o fez desistir e fugir e agora outra frase lhe dava sentido à sua vida.
São as frases no momento certo que podem mudar sua vida para sempre. Fui muito feliz de escutá-la, voltei à Califórnia e deixei todas minhas coisas materiais para ir ao ashram.

 

Um ashram é o equivalente a um monastério ou convento no Ocidente?
É um monastério no campo ou às vezes em uma cidade onde vive um guru com seus discípulos para treiná-los na vida espiritual, na meditação, na oração, na leitura das escrituras e no serviço. É um lugar onde as pessoas se esforçam para desenvolver seu potencial divino. Baba fundou um ashram em San Antonio, Texas, seu primeiro ocidental, em 1994. E na inauguração, eu o vi entrar em estado de nirvikalpa samadhi. Me senti levado à outro mundo, a outro nível de consciência. Depois fui ao seu quarto para pedir-lhe que me aceitasse como seu discípulo e viver com ele. Baba aceitou imediatamente. Mas havia outro Swami, que era seu assistente, que reagiu e disse: não, este jovem tem muitas qualidades negativas. Baba respondeu que em cada ser humano há um interruptor sobre a cabeça, a única coisa que você deve fazer é ligá-lo e a luz vai inundar seu cérebro e sua escuridão vai sair. Ele me deu sua confiança porque pôde ver meu potencial, e não apenas minhas qualidades negativas...

 

Swamiji, para continuarmos com o recorrente, neste processo não houve tentações? As de Santo Antônio, por exemplo, são famosas. Não houve a volta dos amigos, o desejo de casal...?
Não, absolutamente nada. Toda a minha vida anterior foi de tentações e confusões, mas a partir do momento que Baba me aceitou como seu discípulo, nunca tive nenhuma dúvida em minha mente sobre abandonar este caminho... Claro, quando ingressamos na vida espiritual, muitas coisas mudarão por dentro. E nosso círculo de amigos vai mudar também, porque muitos deles não poderão aceitar a sua transformação. Eu, neste momento, descobri que muitos não estavam interessados na minha felicidade. Outros voltaram e me disseram: “Eu não sei que você esta fazendo, mas parece muito mais feliz e melhor”. Agora tenho milhares de amigos no mundo e perdi somente dois ou três.

 

Quando Baba lhe disse: você é Deus. Isso, para qualquer pessoa formada no monoteísmo convencional, é chocante. A mente reage: como vou ser Deus, eu que sou insignificante? Sobre tudo pelo complexo de culpa que nos inculcam.
É chocante para um católico, mas para um ateu como eu era, não. Pensar que você é Deus é blasfêmia, eu não tinha questionamento, estava virgem destes conceitos. Mas aceitei porque senti que há algo que me move, que esta pensando através de mim, amando em meu coração, falando através da minha boca, caminhando com meus pés. O senti tão profundamente, que isso era obvio, não como um status especial, mas que todos somos Deus. Me parece tão claro que não podemos vê-lo. Por isso, fui muito agradecido por nascer em uma família totalmente materialista e atéia, porque não tínhamos nenhum condicionamento sobre o que é Deus ou espiritualidade.

 

Outra constante no caminho espiritual é encontrar falsos Mestres sempre…
Sim, há muitos corruptos, com muito ego, prestígio, dinheiro, sentados em um trono de ouro e sem fazer nada útil. Há mais de 5 milhões de sadhus (monges itinerantes) na Índia, é um número enorme e a maioria não é ética. Eu tinha uma visão muito romântica da Índia, onde em cada casa há um santo, monges levitando… Me decepcionei muito rapidamente. Encontrar um guru autêntico como o Baba é uma oportunidade incrível, é como dizem as escrituras: é karma. Encontrei outros falsos gurus antes e depois, e isso aumentou meu amor e reverência pelo Baba, que era incrivelmente puro... Há um mantra maravilhoso em sânscrito: Oh Deus és minha mãe, és meu pai, és meu amigo, és meu companheiro, és meu conhecimento, és minha riqueza, oh, Deus, tu és meu todo. Essa é a relação com o guru, é nosso todo. Nunca estamos órfãos.

 

E o que acontece quando este todo morre como todos os humanos?
Quando ele morre, não vai mais viver com os discípulos, vai viver nos discípulos. É muito
comum que quando vá deixar seu corpo físico, os discípulos sintam muito mais forte sua
presença depois, porque ele não está limitado pelas leis físicas do corpo, ele é puro espírito
agora.

Você sentiu seu espírito depois, o viu em sonhos talvez?

Não, perdi seu contato por um ano depois de sua morte. Fiquei aterrorizado, fui um Swami fazendo seu trabalho pelo mundo, pelas suas instruções e, depois de sua morte em dezembro de 2002 perdi seu contato físico, porque já não podia cuidar dele, olhar seus olhos. E perdi a conexão espiritual com ele. Foi o pior pesadelo, parei todas minhas atividades porque me senti como um hipócrita de continuar este trabalho sem sentir a conexão com o guru. Fui até os Himalayas em uma cabaninha e fiquei dois anos meditando em absoluto silêncio. Até que recuperei sua presença e me re-conectei com sua energia. Não sabia quanto tempo ia precisar, fui preparado para passar 50 anos se fosse necessário.

 

Bem, vamos ver, para reiterar os recorrentes espirituais. Ocorreu com a tradição do Kriya Yoga o que ocorre sempre: morto o mestre, se dividem os discípulos. Os mulçumanos, morto Maomé, se dividiram em dois grandes grupos, o mesmo aconteceu com os Hare Krishnas após a morte de Prabhupada. Os dois eram irmãos e acabaram sangrando.
Claro que sim, tem acontecido em todas as religiões, em todas as organizações espirituais, é sempre a mesma história. Quando o guru que é a integridade, a força da organização, vai deixar seu corpo, imediatamente há fragmentação. Depois da morte de Baba, enquanto eu estava na reclusão, fui expulso da organização pelo novo líder e tive que começar do nada. Foi como um renascimento, pois foi na época em que senti de novo Baba vivendo dentro de mim. “E Baba, o que faço agora ?”, lhe perguntava; e me deu tudo, até agora! Quando nos entregamos e não estamos tentando agarrar-nos à nossa cultura, país, posses, idioma, inteligência, Deus nos dará tudo.

 

(Aqui as perguntas se cortaram e só pude resgatar algumas)

É necessária a idéia ou presença de Deus para realizar-se? Citarei-lhe uma frase de um cantor comunista, Silvio Rodríguez, ao qual uma vez perguntaram por que não acreditava em Deus. E ele respondeu: não sei de Deus existe ou não, mas se existisse estaria mais orgulhoso se eu estivesse ajudando ao próximo ao invés de adorar-lhe. Deus não seria egoísta nem personalista, então.
É lindo, para mim não é mais importante ser crente ou não. Mas sim acreditar no amor. Fundei a organização, a Arca do Amor, exatamente com este propósito: pôr em ação nosso amor e ajudar aos mais desafortunados do mundo, as crianças de rua, as mulheres violentadas, principalmente na América Latina e na Índia. Uma pessoa atéia de São Paulo nos ajudou por dois anos. Um dia me perguntou se importava que não acreditava em Deus. E lhe disse que não tinha importância, o mais importante é se você crê no amor. Me disse que sim. Então lhe disse: para mim, você é um santo, não é questão de batismo ou de pertencer à uma organização religiosa ou espiritual. Ficou tão impressionado que recebeu a iniciação e, através dela, conheceu a Deus e é dos maiores crentes em Deus agora, vocês não podem imaginar. Começou através do amor, não da religião. A religião do amor é a verdadeira religião.

 

Mas temos tantas imagens de Deus em nossas mente. Diziam os materialistas do início do século XIX que Ele não nos cria à sua imagem e semelhança, e sim nós o criamos a nossa imagem e semelhança.
Nas minhas palestras eu digo freqüentemente que Deus criou o mundo em seis dias, no sétimo o homem criou Deus à sua própria semelhança, quando estava descansando (-; Deus está fora de qualquer tipo de consciência humana que possamos desenvolver, é por isso que nunca podemos estar como ele até que a dissolvamos totalmente. É a mente que é o obstáculo ao pensar, conceituar. Por isso,

nunca podemos estar com Deus se estamos baseados no ego, na identificação com o corpo, com as emoções. Mas quando dissolvemos tudo, abandonamos todas as identificações falsas, neste momento morremos e renascemos em Deus.

 

Indo além dos conceitos… Desde o início dos tempos, e sobretudo em nossa infância, nos encantava que nos contassem histórias . Nos seduzem e cativam com as estratégias narrativas. Você as utiliza para chegar ao coração das pessoas?
Aprendi com Baba que há duas maneiras mais efetivas para tocar o coração de uma pessoa e passar uma mensagem espiritual evitando a defesa do ego: através dos contos e das canções, inclusive da poesia. Porque os dois têm uma linguagem que o ego não pode entender, que é mais racionalista. Quando vai escutar um sermão, imediatamente o rejeita, mas diante de uma história escuta as famosas palavras: “era uma vez”, relaxa, e a mensagem vai entrar de maneira profunda no subconsciente. O mesmo com a poesia mística, os poemas de Rumi ou São João da Cruz têm este poder, ou muitas partes da Bíblia que são poesia: o livro de Jacó, o Cantar dos Cantares, com muitas imagens místicas... A música sagrada tem um poder especial, também é uma linguagem que o ego não entende.

 

E seu talento artístico veio com a sua vida espiritual ou já cantava antes?
Não, eu já me interessava pela música desde os 16 anos, quando queria impressionar uma garota. Foi um desastre e depois nunca mais cantei pelo trauma, mas continuei tocando guitarra em várias bandas de rock, blues, samba, bossa nova, jazz. Pero uma das primeiras coisas que esse Deus vivo que foi meu guru me ensinou, foi… a cantar e contar histórias!


Mas você também utiliza outro recurso: as brincadeiras espirituais.

Sim, porque em muitos dos contos há muito humor, mas sutil. Com uma mensagem, novamente é uma maneira de desarmar o ego. O ego pensa que é uma piada, não é nada sério, e há uma mensagem sendo passada. É uma estratégia espiritual. Baba nos ensinou muitos contos, lendas, histórias, com um humor incrível.

E vocês, o que acham de suas palavras? Alguma penetrou em vocês ou coincidiu com alguma pergunta, experiência, discórdia, busca, necessidade ou intuição que esteja mexendo com vocês? Respondam escutando uma das letras favoritas que cantava Swamiji no Lago Titicaca: “Soy pan, soy paz, soy más” de Piero.

 

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